15º Poder Escolar e a salvaguarda do exercício docente
As trocas ocorridas no evento vão além das formações continuadas
Desde 2001, o foco do Poder Escolar é aproximar a comunidade escolar através da construção coletiva de novas possibilidades para a educação básica em toda a região sul do Rio Grande do Sul. As mais de duas décadas de evento construíram um legado de formações, mas também de cuidado e afeto através da troca de ideias. Segundo dados da organização do evento, nesta 15ª edição, 43% dos participantes já participaram do evento em anos anteriores, enquanto 56% participaram pela primeira vez.
Muitos participantes afirmaram sentir nostalgia ao adentrar o Theatro Guarany na manhã da última segunda-feira (17). Foi o caso da professora Vânia Thies, coordenadora do Centro de memória e pesquisa História da Alfabetização, Leitura, Escrita e dos Livros Escolares (Faculdade de Educação/UFPel) e palestrante do simpósio 10, cujo eixo temático foi “Arte, Cultura, Memória e Linguagens na Educação”. Segundo ela, o Poder se conecta com a sua própria história.
Eu tenho na lembrança alguns momentos deste início da realização desse evento, porque estava na minha formação inicial. Hoje, eu formo outros professores. Precisamos ter contato formativo com outros educadores desde a formação inicial para saber a favor de quem estamos ensinando, porque tomamos esta ou aquela decisão perante tantas situações que desafiam nossa autonomia docente”.
Cuidar do presente e do futuro
Para além de recordar o passado, o 15º Poder Escolar trouxe a urgência de formações solicitadas pelos professores. O tema “Saúde Mental Docente” foi o segundo mais pedido pela categoria durante a elaboração dos simpósios temáticos. Para o psicólogo e professor da Universidade Católica de Pelotas (UCPel), Tharso Meyer, falar sobre saúde mental na educação é falar sobre práticas coletivas de acolhimento. Palestrante no simpósio 4, cujo título foi “Saúde Mental e Trabalho na Educação: desafios para cuidar de quem educa”, Meyer detalhou os desafios de abordar o acolhimento psicológico em um contexto de adoecimento coletivo.
As comunidades estão adoecendo. E não é só o professor, mas também o aluno e as famílias. Infelizmente, a gente muitas vezes acaba, pelo senso comum, tentando individualizar esse problema. E aí isso está resultando no quê? Numa hipermedicalização da sociedade, tanto de crianças como de professores, o que não está resolvendo nada”, afirma. Segundo ele, o cuidado com a saúde mental docente é efetivo quando baseado em políticas públicas e medidas coletivas de acolhimento no ambiente escolar. “Então, a importância da gente pensar nessas redes de cuidado, que muitas vezes já existem como rede de atenção psicossocial, mas que, por desconhecimento ou por alguma experiência negativa que as pessoas tiveram, elas acabam não recorrendo, não trabalhando de uma forma construtiva, colaborativa.”, finaliza.
Criatividade em sala de aula
Um ponto pouco comentado sobre as formações continuadas é o estímulo à criatividade entre docentes para o planejamento pedagógico, especialmente quando se trata da educação de crianças e adolescentes. No Simpósio 5, intitulado “Alfabetização e aprendizagem: desafios contemporâneos da leitura, escrita e matemática”, o trabalho da professora Gisele Morales se destacou. Na apresentação, ela trouxe junto a si o aluno Oscar para descrever sua prática em sala de aula: um ditado temático que se transforma em um exercício de escrita criativa. Temas como “Terror”, “Mistério” e “Magia”, instigaram os alunos do 5º ano a desenvolver habilidades de escrita e interpretação textual.
Para Gisele, a criatividade existe dentro de todas as pessoas, mas é necessário oferecer ferramentas para que ela seja estimulada em sala de aula. “Como professora, tu tens que te desvencilhar das regras, das amarras, e criar. É preciso ter espaço, a escola tem que te permitir e com isso tu cria e surgem ideias muito interessantes e que tu pode desenvolver com os alunos.”, aponta ela. Seu companheiro de apresentação, Oscar, afirmou estar feliz pela experiência: “É um pouco assustador estar na frente de tantos professores, mas também é muito legal”.
Para o coordenador do Centro de Apoio à Gestão e Pesquisa Educacional da Secretaria de Educação (SME) e membro da comissão organizadora do evento, Mauro Del Pino, o Poder Escolar toma para si muitas responsabilidades. “Temos que dar vazão àquilo que as professoras querem, que é construir uma nova educação e construir uma nova educação baseada na esperança de uma grande transformação na sociedade e na educação, uma educação que seja inclusiva, que seja antirracista, que seja transformadora e acolhedora, e, ao mesmo tempo, uma grande responsabilidade de darmos sequência a este evento”. Mauro também afirma o desejo da comissão organizadora de promover mais edições do evento no futuro.
Esse evento é maior do que muitos eventos científicos e acadêmicos que a gente participa por aí, e foi muito bem organizado. Não tivemos lá nenhum acontecimento que não tivesse sido fora do planejamento. Então nós tomamos vários prédios da cidade para que ele pudesse ser realizado, várias salas, todas as salas equipadas. E a qualidade dos trabalhos, realmente, foram fantásticos”, finaliza.
Foto: Isabella Barcellos