Mutirões removem quase 700 cargas de lixo e entulho
Em menos de seis meses, 696 caminhões de sujeira saíram das ruas de Pelotas. Mas não se trata de coleta comum de lixo. O assunto aqui é o descarte irregular de todo o tipo de material jogado pela cidade. Não importa o tipo nem o tamanho. Galhos de árvores, lixo doméstico, pneus, sofás, colchões, geladeiras, máquinas de lavar, camas ou roupas. Nada parece escapar de ser lançado indiscriminadamente em qualquer lugar. Em alguns pontos, os amontoados formam uma espécie de cenário de guerra, escolhido e alimentado diariamente pela falta de conscientização e que o poder público trava uma batalha para reverter. No primeiro semestre de 2017, março foi o recordista no recolhimento, quando 145 caçambas com lixo e entulho foram retiradas. Somente nesta semana – 19 a 23 de junho, o mutirão na zona oeste das Três Vendas removeu 27 cargas do Lindóia, Santa Terezinha, Cohab Lindóia, Py Crespo, Loteamento Toussant e arredores da avenida 25 de Julho. Tudo em apenas um dia. Em maio, o volume encontrado no terreno entre a Rodoviária e a Guabiroba, no Fragata, foi suficiente para encher sozinho 19 caçambas. O que mais choca é que estes são apenas alguns exemplos da triste realidade que assola a cidade: poucas horas após a força-tarefa itinerante deixar os bairros, novos montes voltam a se formar nos mesmos locais. Recentemente a prefeita Paula Mascarenhas lançou a primeira campanha de seu governo, “Seja Doce com Pelotas”, na qual convida a população a se engajar na criação de uma cultura de conservação compartilhada. “A prefeitura está fazendo a sua parte. Limpamos os bairros e realizamos mutirões para tornar a nossa cidade mais bonita e mais agradável para quem vive aqui”, afirma. A participação popular é fundamental para o sucesso das políticas públicas e, na preservação da limpeza, somente a união entre Prefeitura e comunidade poderá trazer resultados efetivos. “Pelotas tem muitos encantos, mas precisa da colaboração de todos para que eles fiquem mais evidentes”, completa Paula. Situação é motivo de revolta O soldador Itamar Falcão, 61, mora há oito anos no Getúlio Vargas e convive diariamente com o problema. Ele concorda que a responsabilidade de manter a cidade limpa também é da população que deve parar de amontoar sujeira nas ruas. “É comum largarem lixo por todo o canto e a situação fica ainda pior quando os cachorros reviram tudo”, reclama. O panorama é motivo de indignação, principalmente, pela falta de conscientização e o descaso com que a manutenção é tratada. “As máquinas passam aqui, limpam e no mesmo dia as pessoas voltam a jogar lixo”, completa Falcão. Como funcionam os mutirões A Secretaria de Serviços Urbanos e Infraestrutura (SSUI) é a responsável pela limpeza no centro e nos bairros. O serviço conta com roçado, varrição, revitalização de praças, e os mutirões entram como uma estratégia de reforço para reduzir os prejuízos do acúmulo de lixo em áreas públicas. Todo o maquinário das seis regionais é deslocado às quartas-feiras para a remoção da maior quantidade possível de sujeira em uma área da cidade. Caminhões caçamba, retroescavadeiras e operários ajudam na limpeza manual dos pontos. O preparo nos Centros de Operação e Serviços ao Cidadão (Cosacs) começa com uma semana de antecedência – tempo necessário para atualizar o mapeamento dos setores mais críticos. O secretário Jeferson Dutra, faz um apelo para que a comunidade modifique seus hábitos e pare de escolher espaços como lixões comunitários. Esta é a única maneira dos mutirões cumprirem realmente o objetivo programado. “Desmerece o esforço de quem passa o dia inteiro no recolhimento. É um trabalho desumano, pois nunca tem fim”, desabafa. Uma questão de educação e higiene Euclides Antônio da Costa, 70, mora há 20 anos no Balneário Santo Antônio e também defende a apropriação da população na destinação correta dos resíduos que ela produz. É com orgulho que ele conta como acondiciona em sacos as folhas removidas do pátio e as leva ao Ecoponto. Enquanto no Laranjal um dos problemas mais recorrentes é a formação de montes de galhos e folhagens, exemplos como o de Costa ainda são raros. Por isso ver as montanhas verdes formadas na vizinhança indigna o aposentado, que considera essencial se apropriar da responsabilidade de manter o entorno onde se vive limpo. “Esse é um problema crônico porque não temos educação e precisamos ter a consciência de que essa tarefa faz parte da nossa higiene”, enfatiza.