Sopapo - 2º Encontro no Museu da Baronesa começa nesta terça-feira com proposta inovadora
Às 17h abre a exposição “Para além das senzalas” e às 18h, Roda de Conversa “O Negro no Museu da Baronesa"
Começa nesta terça-feira (5), o Sopapo - 2º Encontro no Museu, uma iniciativa do projeto Visibilidade do Negro no Museu da Baronesa, com atividades até o dia 10. Nesse dia, excepcionalmente, o Museu abrirá às 17h — normalmente, funciona das 13h30min às 17h30min — com a exposição “Para além das senzalas: narrativas sobre o passado e o presente negro em Pelotas” e, às 18h, haverá a primeira Roda de Conversa: O Negro no Museu da Baronesa. Todas as atividades são abertas ao público e têm entrada franca.
O curador Marcelo Madail diz que a exposição buscar mostrar os "personagens invisíveis" da Chácara da Baronesa. Fotos: Michel Corvello.
Os visitantes que chegarem no Museu da Baronesa entre 5/11 e 1º/12 vão se deparar com uma proposta diferenciada de exposição, rica em simbologias e sincretismo religioso. Oposto ao habitual “não entre” e “não toque” das salas de exposições, nesse projeto o visitante é convidado a fazer, justamente, o contrário: “entre e toque”.
Se os visitantes do Museu da Baronesa estão acostumados a ver as mobílias, objetos decorativos, utensílios, vestuários e quadros de pinturas todas alusivas à baronesa e sua família, durante essa exposição serão lembrados das outras pessoas que lá habitaram, na mesma época. Enquanto o sistema escravagista tentava anular a cultura dos africanos trazidos para o Brasil – não por acaso, colocavam na mesma senzala escravos de diferentes etnias, línguas, culturas e religiões —, a exposição faz o movimento contrário: busca resgatar e valorizá-la.
A partir de uma pesquisa intensa em cartas testamentais e registros de nascimento e de óbito antigos, a exposição recria a biografia de vários ‘personagens invisíveis’, que viviam na Chácara da Baronesa, no século 19. Pessoas que trabalhavam na charqueada, que participaram da construção e logo da limpeza da casa, que cuidavam dos jardins e da chácara, que preparavam a comida, que costuravam e cuidavam das roupas dos “senhores” e de seus filhos, muitas como suas amas-de-leite e amas-secas (babás), entre tantas outras funções. Pessoas que faziam parte do cotidiano, que davam vida à casa mas que, até há pouco, eram desconsideradas, como se não tivessem existido”, explica Marcelo Hansen Madail, conservador e restaurador do Museu da Baronesa e curador da exposição.
Conforme Madail, estima-se que o Coronel Anníbal Antunes Maciel tivesse entre 125 e 150 escravos e que, pelo menos, 25 trabalhassem na Chácara da Baronesa. Com o levantamento de dados históricos, foi possível juntar as informações e averiguar quem casou com quem, os filhos que tiveram, em que trabalhavam, e assim recriar parte dessa árvore genealógica, ocultada pela história.
Sopapo
Objeto central da vitrine da exposição, o sopapo é um tambor grande, genuinamente pelotense, criado pelos escravos que trabalhavam nas charqueadas. Símbolo de resistência, era usado em suas celebrações para rememorar a sua terra e os seus ancestrais. Devido à importância histórica do instrumento de percussão, em novembro de 2018 Pelotas foi declarada, por meio do Decreto nº 6.130, assinado pela prefeita Paula Mascarenhas, "cidade do Tambor de Sopapo".
A importância histórica do sopapo foi resgatada, em 2000 e 2001, pelo projeto Cabobu, de iniciativa dos mestres griôs Giba Giba e Mestre Baptista. O Coletivo Catarse, em convênio com o Programa Nacional do Patrimônio Imaterial do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), desenvolveu o projeto Tambor de Sopapo – Resgate Histórico da Cultura Negra do Extremo Sul do Brasil, que buscava contribuir para a preservação do tambor de sopapo, através de diversas ações: confecção de 1000 cartilhas com ilustrações explicando detalhadamente como se produz o tambor de sopapo; produção de 500 caixas com 5 DVDs, constando entrevistas completas com os luthiers e mestres griôs envolvidos na produção e história do tambor de sopapo, entre outras informações; editoração de 1000 livros com as degravações das entrevistas com os luthiers e mestres griôs, além de uma seleção de fotografias do ensaio do DVD. O projeto também realizou oficinas para a produção de 40 tambores de sopapo, que foram distribuídos em escolas da rede pública.
Roda de Conversa
A primeira de quatro rodas de conversa do evento, “O Negro no Museu da Baronesa”, que ocorre a partir das 18h desta terça, será conduzida pelas equipes atual e a que trabalhava no Museu em 2001, quando foram realizadas as primeiras ações no sentido de dar visibilidade à cultura negra no Museu.
Segue a programação completa: