Tradição doceira pode tornar-se Patrimônio Nacional
Iphan decide simultaneamente, pela primeira vez, sobre certificação material e imaterial. Arquitetura e forma de produção de doces são avaliadas
Na próxima terça-feira (15), Pelotas poderá ser protagonista de um ato de reconhecimento e preservação inédito no Brasil. Nesta data, o Conselho Consultivo do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) definirá se o conjunto arquitetônico histórico e o modo de fazer os doces da região se tornarão patrimônio material e imaterial, simultaneamente. Caso se confirme, será a primeira vez, na história da instituição, que a certificação se dará em ambas categorias ao mesmo tempo.
A principal tese para reconhecer a tradição doceira está no fato de que a produção de charque – a principal atividade econômica de Pelotas no final do século 18 -, influenciou diretamente o desenvolvimento das receitas dos doces tradicionais. A venda de carne para o Nordeste permitiu o acesso ao açúcar produzido nesta região, pois o transporte era realizado pelos mesmos navios.
Fotos: Ascom
O processo, que será julgado em Brasília, passará pelo crivo de 23 representantes de instituições públicas, privadas e da sociedade civil. No julgamento, vão avaliar o conjunto de quatro pedidos de cidadãos pelotenses para tombamento da cidade como patrimônio nacional, além de um inventário construído entre 2006 e 2008.
A tradição doceira
O modo de fazer os doces tradicionais pelotenses é mencionado como patrimônio imaterial no projeto e inclui, além de Pelotas, os municípios de Arroio do Padre, Capão do Leão, Morro Redondo e Turuçu – chamados de Antiga Pelotas.
No pedido de reconhecimento está contemplado um plano de preservação do modo de produção dos doces na região, com ações para a manutenção e transmissão do conhecimento para as gerações seguintes.
Além disso, tanto a produção dos chamados doces finos - que tornaram a cidade famosa pela ligação com a tradição europeia -, quanto a de doces coloniais - desenvolvidos no meio rural e vinculados à história dos imigrantes europeus e escravos do ciclo do charque -, estão inseridas.
Se o plano for aprovado, a tradição doceira será o segundo bem imaterial do Rio Grande do Sul reconhecido pelo Iphan, e integrará o Livro dos Saberes. O primeiro bem imaterial reconhecido foi a Tava, lugar de referência para o povo Guarani-Mbyá.
Prédios tombados
Na proposta encaminhada ao Iphan, estão previstos sete locais para tombamento: as praças Cypriano Barcellos, Coronel Pedro Osório, José Bonifácio e Piratinino de Almeida; o Parque Dom Antônio Zattera; a Charqueada São João e a Chácara da Baronesa.
No projeto, estão descritas características arquitetônicas de cada um dos lugares, além das diretrizes para a preservação desses locais e de prédios importantes ao redor do Centro Histórico, como o Mercado Público, a Catedral Metropolitana São Francisco de Paula, entre outros. Se o tombamento nacional ocorrer, os locais passarão a ter sua gestão compartilhada entre a Prefeitura e o governo federal.