Uma chance de recomeçar
Alex, Tiago, Luciano, Maurício, Carlos, Jaime… Viviam pelas ruas, rejeitados pela família, sem nenhuma perspectiva, sem saber o que fazer. Totalmente entregues ao álcool ou outras drogas. Perdidos. Todos passaram pela Unidade de Acolhimento Adulto (UAA), vinculada à Secretaria de Saúde (SMS), que nesta quarta-feira, 31 de maio, completa um ano de funcionamento. Hoje são lembrados com carinho e alegria, como nomes de sucesso da casa. Eles tiveram uma segunda chance, uma oportunidade de recomeçar, e conseguiram refazer suas vidas. “Meu problema era o álcool. Depois de quatro meses e 11 dias aqui, voltei a ser o que eu era”, relata Adalberto Correa, de 56 anos. Natural de Encruzilhada do Sul, “seu” Beto conta que começou a beber ainda criança, aos seis anos de idade. “Tudo piorou quando fiquei viúvo. Aí eu me perdi. Vim de Encruzilhada do Sul a pé, procurar ajuda na igreja de uma amiga. Cheguei aqui irreconhecível. Me encaminharam ao CAPS e depois pra cá. Quero trabalhar e ficar em Pelotas”, relata o usuário que faz oficinas, frequenta o grupo de dependentes alcoólicos do Centro de Atendimento Psicossocial Álcool e outras Drogas CAPS AD 3 (terceiro turno), gosta de jardinagem e de cozinhar – a casa exalava o cheiro dos pães que assavam no forno, obra do “seu” Beto. “Se dependesse de nós, ele são saía daqui. Todo mundo gosta dele”, conta a técnica em Enfermagem Sônia Alves, que trabalha na UAA. Pelas normas da Unidade, cada usuário pode ficar até seis meses na casa. Encaminhados pelo CAPS AD 3, onde passam por avaliações psicológicas, psiquiátricas e desintoxicação, eles chegam na UAA com as prescrições dos medicamentos e reaprendem ali noções básicas de higiene (tomar banho todos os dias, escovar os dentes, como usar os talheres, etc.), a morar em grupo, a dividir as tarefas domésticas - a compartilhar. Nos primeiros 15 dias, se precisam sair da Unidade, são acompanhados por um educador social. “A gente vai conhecendo eles e alguns podem até passar a noite ou o fim de semana fora, na casa de um parente ou namorada”, explica Sônia. Recompensa Tão importante quanto o tratamento com os medicamentos é o diálogo. A maioria tem histórico familiar de drogadição e abandono. Eles se acostumaram à rejeição, a serem maltratados, excluídos, a viver sem regras, sem limites… “Procurar entender e saber como lidar com essas pessoas é fundamental”, aposta o técnico em Enfermagem Cláudio Maciel. “Um voto de confiança é muito importante nesse momento, mas a gente sabe que não é fácil para ninguém. Muitos aprontam, têm recaídas… Se, em cada dez, um ou dois conseguem se recuperarem, já valeu a pena”, avalia. Motivos para comemorar Devido à complexidade da área, os índices de reabilitação de dependentes químicos costumam ser bem baixos – cerca de 5%. No UAA, é de quase 30%. Em um ano, 34 homens passaram pela Unidade. Destes, cerca de dez conseguiram a reabilitação sem notícias de recaídas até o momento e entre os nove internos atuais, com idades de 18 a 56 anos, vários já mostram progresso significativo. A equipe conta com três técnicos em enfermagem, uma assistente social e três educadores sociais. A Unidade integra a Política Nacional de Álcool e Drogas, com referência na Redução de Danos. “Não trabalhamos com exigência de abstinência. A equipe ajuda o usuário a pensar, a refletir sobre sua saúde e projetos de vida”, explica a coordenadora da Rede de Álcool e Drogas (AD) do Município, Gabriela Haack. Às 19h desta quarta-feira, haverá uma confraternização entre usuários e funcionários, para comemorar o primeiro aniversário da casa. A UAA fica na rua Dom Pedro II, 565.